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Stray Kids no Rock in Rio: por que a chegada do K-pop ao Palco Mundo é histórica

A chegada do Stray Kids ao Rock in Rio marca um momento inédito na história do festival. Nesta sexta-feira, 11 de setembro, o K-pop ocupa pela primeira vez o Palco Mundo, em uma noite que também recebe NEXZ e Hwasa e termina com o Stray Kids como atração principal.

Mas a estreia do gênero no Rock in Rio não representa a chegada do K-pop ao Brasil. Muito antes de ocupar o maior palco da Cidade do Rock, artistas sul-coreanos já reuniam uma comunidade consolidada no país. No caso do Stray Kids, essa relação já havia sido colocada à prova em três estádios lotados em 2025.

Para entender por que oito artistas sul-coreanos chegam ao Rock in Rio como headliners, é preciso voltar alguns anos e conhecer o grupo e a identidade que construíram ao longo de sua trajetória.

Quem é Stray Kids?

Stray Kids é um grupo sul-coreano formado pela JYP Entertainment através do reality show Stray Kids, exibido em 2017. O grupo debutou oficialmente em 2018 e atualmente é formado por oito integrantes: Bang Chan, Lee Know, Changbin, Hyunjin, Han, Felix, Seungmin e I.N. O fandom oficial recebeu o nome de STAY.

Ao longo de oito anos de carreira, o grupo cresceu muito além do programa que lhe deu origem. Parte importante dessa trajetória está justamente em uma característica presente desde o começo: a participação dos próprios integrantes na construção da música que apresentam.

Um som que transformou diferença em identidade

Um dos principais diferenciais do Stray Kids está na participação direta dos integrantes em seu processo criativo. No centro dessa produção está o 3RACHA, trio formado por Bang Chan, Changbin e Han, que participa ativamente da composição, escrita e produção das músicas do grupo.

Essa liberdade criativa ajudou a construir uma sonoridade difícil de encaixar em uma única definição. Hip-hop, música eletrônica, rock e pop convivem com elementos experimentais e aparecem em proporções diferentes de uma faixa para outra. Ter uma identidade musical reconhecível, no caso do Stray Kids, não significa repetir a mesma fórmula.

Ao longo da carreira, justamente essa experimentação também fez com que a música do grupo fosse classificada por alguns ouvintes como “barulhenta”, uma crítica que acabou se tornando quase parte de sua identidade. O que inicialmente os diferenciava de parte do que o público estava acostumado a ouvir no K-pop se transformou, com o tempo, em uma de suas assinaturas.

Especialmente nos trabalhos mais recentes, o grupo transita entre músicas fortemente eletrônicas, faixas com influência de rock, hip-hop, pop e composições mais melódicas sem abandonar completamente aquilo que tornou seu som reconhecível.

Se essa identidade ajudou a diferenciar o Stray Kids dentro de uma indústria extremamente competitiva, os anos seguintes mostraram até onde ela poderia levá-los.

De arenas e estádios ao Palco Mundo

Ao longo dos últimos anos, o crescimento do Stray Kids passou a aparecer também nos números. Em 2026, o grupo alcançou seu nono álbum consecutivo no primeiro lugar da Billboard 200, tornando-se o primeiro artista nos 70 anos da parada a ter suas nove primeiras entradas estreando diretamente no topo.

No Brasil, a dimensão desse público já havia ficado evidente um ano antes. Em 2025, durante a turnê DominATE, o grupo realizou três apresentações em estádios: uma no Estádio Nilton Santos (Engenhão), no Rio de Janeiro, e duas no Estádio Cícero Pompeu de Toledo (Morumbi), em São Paulo. Juntas, reuniram cerca de 175 mil pessoas, naquela que foi apontada como a maior passagem de uma turnê de K-pop pelo país até então.

Grandes festivais também não são novidade para o grupo. Stray Kids já passou por eventos como Lollapalooza Paris, Lollapalooza Chicago e Governors Ball. Em 2026, criou ainda o Stray City, festival próprio que passa pela América Latina acompanhado de outros artistas. A primeira edição aconteceu em Bogotá nesta semana e contou, entre os convidados, com o NEXZ, que também participa da noite de K-pop no Rock in Rio.

Assim, quando o Stray Kids sobe ao Palco Mundo, não se trata de uma aposta em um grupo cujo poder de público no Brasil ainda precisa ser descoberto. Cerca de 175 mil pessoas já haviam respondido a essa pergunta um ano antes.

Um fandom que cresceu junto com o K-pop

Apesar de o K-pop ainda aparecer frequentemente associado a um público exclusivamente infantil ou adolescente, a realidade de seus fandoms é mais diversa. A própria passagem do tempo ajuda a explicar por quê.

Uma pesquisa publicada em 2015 sobre fãs de K-pop no Brasil, realizada com mil respondentes, encontrou naquele momento um público majoritariamente feminino e com forte presença de jovens entre 15 e 18 anos. Onze anos se passaram desde então. As adolescentes daquela pesquisa hoje estão aproximadamente entre os 26 e 29 anos.

O mesmo raciocínio pode ser aplicado ao próprio Stray Kids. O grupo estreou em 2018 e completa oito anos de carreira em 2026. Uma fã que começou a acompanhá-los aos 16 anos hoje tem 24. Quem chegou aos 20 tem 28. Ao mesmo tempo, novos fãs de diferentes idades continuam entrando no fandom.

Isso não significa negar a presença de crianças e adolescentes entre os fãs do gênero. Significa reconhecer que ter fãs jovens é diferente de ser um produto destinado a crianças.

Durante anos, parte da cobertura sobre o K-pop reduziu o fenômeno à ideia de uma “febre adolescente”, uma descrição que não apenas simplifica a diversidade artística do gênero, como ignora algo inevitável: os artistas envelheceram, seus fãs também, e o público continuou crescendo.

O fandom amadureceu e passou a ocupar arenas e estádios antes mesmo que alguns dos maiores festivais brasileiros começassem a abrir seus principais palcos para o gênero.

A estreia histórica do K-pop no Rock in Rio

Em 41 anos de história, esta é a primeira vez que o Rock in Rio dedica uma programação do Palco Mundo ao K-pop. NEXZ, Hwasa e Stray Kids compõem a sequência desta sexta-feira, com o Stray Kids responsável por encerrar a noite como headliner.

Talvez esteja aí o aspecto mais simbólico dessa estreia: o K-pop não chega ao Rock in Rio ocupando um espaço secundário. Chega fechando o Palco Mundo.

A adaptação do festival ao público que recebe também vai além da escolha dos artistas. Nesta edição, o Rock in Rio flexibilizou algumas de suas regras e passou a permitir itens muito presentes na cultura dos fandoms de K-pop. Entre eles estão lightsticks, chaveiros, buttons e correntes utilizadas como acessórios, desde que não apresentem objetos pontiagudos ou elementos que possam oferecer risco.

Também ganharam espaço os chamados freebies, pequenos brindes produzidos pelos próprios fãs para distribuir gratuitamente ou trocar entre si. A prática faz parte da experiência dos fandoms de K-pop e transforma filas e encontros antes dos shows em espaços de troca entre pessoas que, muitas vezes, sequer se conheciam antes daquele dia.

A própria necessidade de o festival detalhar e esclarecer o que poderia ou não entrar na Cidade do Rock mostra uma adaptação que vai além de simplesmente colocar artistas sul-coreanos no line-up. Pela primeira vez, o Rock in Rio também abre espaço para elementos da cultura construída em torno desses artistas e de seus fãs.

A apresentação é histórica, mas não representa a chegada do gênero ao Brasil. Representa o reconhecimento, por parte de um dos maiores festivais do país, de uma comunidade que já existia, crescia e movimentava grandes públicos muito antes desta noite.

O que esperar do show do Stray Kids?

Para quem nunca assistiu a uma apresentação do Stray Kids, a presença de palco é uma das características que ajudam a explicar a reputação construída pelo grupo. Os shows combinam coreografias, performances intensas e um repertório pensado para manter a energia do público.

Mesmo quando apresentam músicas já conhecidas pelos fãs, o grupo costuma levar aos palcos arranjos diferentes das versões de estúdio. Algumas faixas ganharam versões específicas para festivais, dando uma nova energia às apresentações ao vivo e permitindo que músicas antigas retornem ao repertório com outra roupagem.

A proximidade entre o Rock in Rio e a primeira edição do Stray City também alimentou especulações entre os fãs sobre o repertório desta noite. Depois da apresentação realizada nesta semana em Bogotá, uma das expectativas é que parte daquele setlist seja aproveitada no Palco Mundo. Até o momento, porém, trata-se de uma expectativa baseada nas apresentações recentes, e não de um repertório confirmado pelo festival ou pelo grupo.

Para quem vai conhecer o Stray Kids justamente por causa do Rock in Rio, algumas faixas ajudam a percorrer diferentes momentos da identidade do grupo. “God’s Menu” e “Thunderous” estão entre os grandes sucessos que ajudaram a consolidar sua assinatura musical, enquanto “CEREMONY”, “Do It” e “THIS & THAT” representam alguns de seus trabalhos mais recentes.

Depois de oito anos de carreira, Stray Kids não chega ao Rock in Rio para apresentar o K-pop ao Brasil. O público brasileiro já conhece o gênero, já acompanha o grupo e já mostrou sua dimensão ocupando estádios.

O que acontece nesta sexta-feira é outra coisa.

Depois de 41 anos, o K-pop finalmente chega ao Palco Mundo. E chega como atração principal.

Luiza Reyes
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