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Crazy Ex-Girlfriend: 3 músicas que mostram por que a série é muito mais do que uma comédia romântica

Entre coreografias absurdas e letras desconfortavelmente sinceras, Crazy Ex-Girlfriend transformou saúde mental, relacionamentos e autodestruição em números musicais inesquecíveis.

À primeira vista, Crazy Ex-Girlfriend parece acompanhar apenas uma mulher que abandona sua carreira em Nova York e se muda para West Covina na tentativa de reencontrar Josh Chan, um antigo namorado.

Mas a série criada por Rachel Bloom e Aline Brosh McKenna utiliza essa premissa para desconstruir as comédias românticas e mostrar que nenhum relacionamento consegue resolver aquilo que uma pessoa evita enfrentar dentro de si.

Rebecca Bunch é inteligente, carismática, divertida e profundamente complicada. Suas músicas transformam pensamentos, inseguranças e fantasias em grandes produções musicais, permitindo que o público entre em sua mente mesmo nos momentos mais difíceis.

O próprio título da série utiliza propositalmente uma expressão sexista para questionar a maneira como mulheres emocionalmente vulneráveis costumam ser retratadas. Segundo Rachel Bloom, a intenção sempre foi desconstruir esse estereótipo, não reforçá-lo.

Entre tantas músicas incríveis, selecionamos três que representam perfeitamente a evolução emocional de Rebecca.

O texto contém informações importantes sobre o desenvolvimento da protagonista, então pode conter spoilers.

1. You Stupid Bitch

Uma das músicas mais dolorosas da série também é apresentada como uma grande balada digna de um espetáculo.

Depois de perceber as consequências de suas próprias escolhas, Rebecca sobe em um palco imaginário e começa a se atacar. Tudo aquilo que ela acredita sobre si mesma se transforma em música, enquanto uma plateia elegante acompanha sua destruição emocional.

O contraste é brilhante. A melodia, a iluminação e o figurino fazem parecer que estamos diante de um momento de vitória. Entretanto, o que Rebecca apresenta é uma lista cruel de insultos direcionados a si mesma.

A cena mostra como a protagonista não precisa que outra pessoa a castigue. Quando algo dá errado, ela assume esse papel e transforma um erro em uma prova de que não merece ser amada.

A música também revela uma característica importante de Crazy Ex-Girlfriend: a série consegue ser engraçada sem diminuir a dor da personagem. Podemos reconhecer o exagero da situação e, ao mesmo tempo, compreender que aquela violência emocional é muito real.

2. A Diagnosis

Depois de passar boa parte da série sem compreender por que sente e age de determinadas maneiras, Rebecca finalmente recebe um diagnóstico.

Em vez de reagir apenas com medo ou vergonha, ela sente alívio.

Em A Diagnosis, a protagonista transforma esse momento em um número musical cheio de esperança. Para Rebecca, finalmente existe uma explicação capaz de organizar pensamentos, comportamentos e sentimentos que pareciam impossíveis de controlar.

A série acerta ao mostrar que um diagnóstico não precisa representar uma sentença. Ele pode ser o começo de uma nova relação com a própria saúde mental.

Isso não significa que todos os problemas serão resolvidos imediatamente. Rebecca ainda precisa reconhecer seus padrões, assumir responsabilidades e aceitar ajuda. O diagnóstico não encerra sua história, mas oferece um caminho para que ela pare de acreditar que é simplesmente uma pessoa quebrada.

3. Antidepressants Are So Not a Big Deal

Quando Rebecca demonstra insegurança diante da possibilidade de utilizar medicação, sua terapeuta transforma a conversa em um grande número inspirado nos musicais clássicos.

Antidepressants Are So Not a Big Deal trata o uso de antidepressivos como algo comum. Pessoas aparentemente bem resolvidas também podem precisar de tratamento, e isso não diminui suas conquistas, personalidades ou capacidades.

A música não ignora possíveis efeitos colaterais e também não apresenta os medicamentos como uma solução mágica. Sua principal mensagem é que não deveria existir vergonha em buscar uma alternativa capaz de tornar a vida mais administrável.

Esse equilíbrio permite que a série converse sobre tratamento psiquiátrico sem transformar a experiência em uma tragédia ou em uma lição excessivamente didática.

A canção venceu o Emmy de Melhor Música e Letra Original em 2019. Sua coreografia também foi reconhecida pela Academia de Televisão ao lado de Don’t Be a Lawyer.

Uma história contada por meio da música

As três canções formam uma espécie de trajetória emocional.

Em You Stupid Bitch, Rebecca acredita que merece ser punida. Em A Diagnosis, ela encontra uma explicação que pode ajudá-la a entender seus comportamentos. Em Antidepressants Are So Not a Big Deal, começa a aceitar que o tratamento também pode fazer parte de sua vida.

Essa evolução mostra por que Crazy Ex-Girlfriend continua sendo uma série tão especial.

As músicas não existem apenas para divertir ou interromper a narrativa. Elas revelam pensamentos que os personagens não conseguiriam expressar em uma conversa comum. Cada número musical amplia o que está acontecendo e permite que temas difíceis sejam tratados com humor, criatividade e honestidade.

No fim, a história nunca foi realmente sobre Rebecca escolher entre Josh, Greg ou qualquer outro interesse amoroso.

Era sobre aprender a escolher a si mesma.

Guilherme Esteves
Sobre quem escreveu

Guilherme Esteves

Guilherme Esteves é escritor, profissional de marketing e Head de Conteúdo do Portal Espectro. Apaixonado por cultura pop e boas histórias, escreve sobre livros, filmes, séries, games e tudo aquilo que merece ser descoberto, comentado e compartilhado.

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