Poucas personagens da cultura brasileira carregam tanta força quanto Geni. Criada por Chico Buarque para Ópera do Malandro, ela atravessou o teatro, a música e o cinema enquanto continuava expondo uma das contradições mais cruéis da sociedade: a facilidade com que pessoas marginalizadas são rejeitadas, usadas quando se tornam necessárias e abandonadas assim que deixam de servir.
Agora, quase cinco décadas depois de sua primeira aparição, Geni se prepara para ocupar o centro de uma nova produção cinematográfica. Dirigido por Anna Muylaert e protagonizado por Ayla Gabriela e Seu Jorge, Geni e o Zepelim atualiza esse clássico para uma comunidade ribeirinha no coração da Amazônia.
Mas, antes de chegar às telas, o filme também precisou enfrentar uma discussão importante sobre quem poderia dar vida a uma personagem tão atravessada pela identidade trans.
Geni nasceu nos palcos de Ópera do Malandro
Apresentada pela primeira vez em 1978, Ópera do Malandro transportou para o Brasil referências de obras como A Ópera dos Três Vinténs, de Bertolt Brecht e Kurt Weill, criando uma história marcada por corrupção, exploração, desejo, desigualdade e sobrevivência.
É nesse universo que conhecemos Geni, descrita no texto original como uma travesti e trabalhadora sexual. Ela vive à margem da sociedade e é constantemente transformada em alvo da crueldade coletiva.
Quando um poderoso Comandante chega à cidade em seu zepelim e ameaça destruir tudo, Geni se torna a única pessoa capaz de impedir a tragédia. O mesmo povo que a desprezava passa a implorar para que ela os salve.
Geni aceita.
A cidade sobrevive.
E, assim que o perigo desaparece, todos voltam a tratá-la da mesma maneira.
O que torna essa história tão incômoda é que ela não fala apenas sobre a violência de um homem ou de uma instituição. Ela fala sobre uma sociedade inteira, capaz de fingir respeito quando precisa de alguém e recuperar seu preconceito assim que consegue o que deseja.
Uma personagem marcada pela hipocrisia coletiva
Com o passar dos anos, Geni deixou de pertencer apenas ao universo de Ópera do Malandro. Sua história se tornou uma imagem poderosa sobre perseguição, transfobia e exclusão.
O refrão da canção atravessou gerações, mas seu significado nem sempre recebeu a mesma atenção. Geni não é somente uma personagem humilhada por ser diferente. Ela é transformada em instrumento por uma população que jamais reconhece sua humanidade.
A obra também dialoga com o conto francês Bola de Sebo, de Guy de Maupassant. Na história, uma trabalhadora sexual é pressionada a se sacrificar por um grupo que, depois de se beneficiar de sua decisão, volta a desprezá-la.
Outra referência presente na construção de Geni é Jenny dos Piratas, canção de Brecht e Kurt Weill sobre uma mulher humilhada que imagina a chegada de um navio capaz de destruir seus opressores.
Chico Buarque reuniu essas influências e criou uma personagem profundamente brasileira, inserida em uma sociedade que condena publicamente aquilo que utiliza e deseja em segredo.
Geni no cinema e nos palcos
A história de Ópera do Malandro ganhou uma adaptação cinematográfica dirigida por Ruy Guerra, lançada nos anos 1980. Geni estava presente no universo do filme, mas ainda não ocupava o centro da narrativa.
Décadas depois, uma nova montagem do musical dirigida por Jorge Farjalla estreou em São Paulo e seguiu para o Rio de Janeiro em 2026. Valéria Barcellos assumiu o papel de Geni, marcando a primeira vez em que uma atriz trans interpretou a personagem em uma grande produção de Ópera do Malandro.
A escolha colocou a identidade de Geni novamente no centro da obra e mostrou como um clássico pode dialogar com seu próprio tempo sem perder a força do texto original.
Mais do que repetir uma história conhecida, a montagem ajudou a demonstrar por que Geni ainda provoca discussões tão importantes.
O novo filme transforma Geni em protagonista
Em Geni e o Zepelim, Anna Muylaert parte da canção de Chico Buarque e do conto Bola de Sebo para construir uma narrativa própria.
A história será ambientada em uma comunidade ribeirinha na Amazônia. Geni, interpretada por Ayla Gabriela, é uma travesti e trabalhadora sexual amada pelas pessoas marginalizadas, mas desprezada por parte da sociedade local.
O conflito começa quando a região é invadida pelo Comandante, vivido por Seu Jorge. Ele chega com suas tropas e um projeto de exploração predatória, disposto a expulsar os moradores e controlar o território.
Quando o Comandante demonstra interesse por Geni, o destino de toda a comunidade passa a depender dela.
As gravações aconteceram em Cruzeiro do Sul, no Acre, e também utilizaram o rio Moa como cenário. Além de Ayla Gabriela e Seu Jorge, o elenco reúne Suzy Lopes, Gero Camilo, Ênio Cavalcante, Gorete Milagres e Shirley Cruz. A produção ainda contou com atores e centenas de figurantes da região.
Embora Geni já tenha aparecido na adaptação cinematográfica de Ópera do Malandro, o novo longa é a primeira produção para o cinema construída especificamente ao redor de sua história.
A polêmica que mudou o rumo do filme
Antes do início das filmagens, Thainá Duarte havia sido anunciada como protagonista. A escolha de uma atriz cisgênero provocou críticas, principalmente porque Geni é descrita como travesti no texto original.
A discussão foi além de uma escolha individual de elenco. Artistas e representantes da comunidade trans questionaram a falta de oportunidades para atrizes trans, especialmente em uma produção de grande alcance centrada em uma personagem historicamente associada a essa identidade.
Inicialmente, Anna Muylaert explicou que sua adaptação apresentaria Geni como uma mulher cisgênero. Depois da repercussão, a diretora reconheceu o problema, anunciou mudanças no roteiro e confirmou que o papel seria reescalado.
Ayla Gabriela foi então escolhida para interpretar a protagonista.
A mudança não apagou a controvérsia, mas mostrou que escutar as críticas também pode transformar uma produção. A identidade trans de Geni foi reincorporada ao filme e uma atriz trans passou a ocupar o centro de uma obra de grande visibilidade nacional.
Uma nova Geni para um Brasil ainda reconhecível
Transferir a história para a Amazônia amplia as possibilidades da adaptação. O preconceito que cerca Geni passa a dividir espaço com disputas por território, exploração ambiental, abuso de poder e violência contra comunidades afastadas dos grandes centros.
O Comandante deixa de representar somente uma ameaça distante. Ele se torna a imagem de um poder que chega prometendo progresso enquanto tenta controlar a terra, os corpos e o futuro de quem já vive naquele território.
No meio de tudo isso está Geni, novamente obrigada a decidir se salvará pessoas que nunca ofereceram a ela a mesma proteção.
A nova ambientação pode fazer com que a história converse diretamente com o Brasil contemporâneo. Ainda assim, o maior desafio do filme será preservar a contradição que transformou a personagem em um símbolo tão poderoso.
Geni não precisa ser apresentada como uma santa perfeita para merecer respeito. Sua humanidade não depende de sacrifício, aprovação ou heroísmo. Esse talvez seja o ponto mais importante de sua história.
Quando estreia Geni e o Zepelim?
As filmagens foram concluídas em junho de 2025. Até o fechamento desta matéria, a Paris Filmes mantinha Geni e o Zepelim entre seus próximos lançamentos, mas ainda não havia divulgado uma data oficial para a estreia nos cinemas.
A produção é da Migdal Filmes, com coprodução da Paris Entretenimento e da Globo Filmes. A distribuição nacional será realizada pela Paris Filmes.
Enquanto aguardamos a chegada do longa, revisitar Ópera do Malandro ajuda a compreender por que Geni permanece tão atual. Sua história continua perguntando quem a sociedade escolhe proteger, quem está autorizada a humilhar e por que algumas pessoas só recebem respeito quando se tornam necessárias.
Quase cinquenta anos depois, talvez o mais perturbador seja perceber que Geni continua falando sobre nós.