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Sassiverso: entenda o universo compartilhado de Gloria Groove, IZA, Lia Clark e Wanessa

Antes de os multiversos dominarem o entretenimento, Felipe Sassi conectou cinco videoclipes do pop brasileiro em uma mesma trama de fugitivas, rebelião, crítica política e muito pink money

Há universos compartilhados nos cinemas, nas séries e também no pop brasileiro. Entre 2018 e 2019, o diretor e roteirista Felipe Sassi transformou cinco videoclipes de artistas diferentes em capítulos de uma mesma história. A saga ganhou dos fãs o apelido de Sassiverso e reuniu Lia Clark, Wanessa Camargo, Gloria Groove e IZA em uma narrativa cheia de ação, humor, resistência e crítica social.

Assistidos separadamente, os vídeos funcionam como obras completas. Quando colocados na ordem narrativa, porém, cartazes, manchetes, objetos de cena e pequenas aparições revelam uma trama maior: duas criminosas perseguidas pela polícia, uma rebelião em um presídio, fugitivas que ganham novos destinos e uma aliança entre divas procuradas pelo sistema.

O resultado foi uma espécie de franquia cinematográfica condensada em videoclipes, com direito a pistas para o capítulo seguinte e um grande encontro no final.

O que é o Sassiverso?

Sassiverso é o nome pelo qual ficou conhecido o universo narrativo criado por Felipe Sassi nos clipes “Bumbum no Ar”, “Coisa Boa”, “LOKO!”, “YoYo” e “Terremoto”. Todos foram dirigidos por Sassi e compartilham personagens, acontecimentos e elementos visuais.

O próprio diretor descreveu a ideia como uma brincadeira que acabou envolvendo os fãs por fazer algo ainda pouco comum no pop nacional. Mais do que repetir uma estética, os vídeos se comunicam: uma ação iniciada em um clipe provoca consequências em outro, enquanto jornais e programas de televisão fictícios ajudam a informar o público sobre o que está acontecendo naquele mundo.

Embora a ordem dos lançamentos não corresponda perfeitamente à sequência dos acontecimentos, a cronologia mais clara para acompanhar a história é:

  1. Bumbum no Ar, de Lia Clark e Wanessa Camargo
  2. Coisa Boa, de Gloria Groove
  3. LOKO!, de Wanessa Camargo
  4. YoYo, de Gloria Groove e IZA
  5. Terremoto, de Lia Clark e Gloria Groove

“Bumbum no Ar”: o começo de tudo

Lançado em 2018, “Bumbum no Ar” apresenta Lia Clark e Wanessa Camargo como duas mulheres decididas a impedir a ascensão de Jota Palhares, um candidato à presidência retratado como machista, racista e LGBTfóbico.

Disfarçadas de massagistas, elas tentam eliminar o político antes da eleição. O plano falha, Palhares é levado ao hospital e a dupla precisa improvisar uma nova operação. Quando Lia e Wanessa tentam fugir com o alvo, acabam cercadas pela polícia.

O primeiro capítulo estabelece a mistura que definiria todo o Sassiverso: referências ao cinema de ação, exagero proposital, humor ácido e uma resposta fantasiosa à violência política sofrida por mulheres, pessoas negras e pela comunidade LGBTQIA+.

“Coisa Boa”: Gloria Groove lidera a rebelião

Em “Coisa Boa”, a trama se desloca para um presídio. Gloria Groove surge como a força que movimenta uma rebelião e transforma aquele espaço de repressão em palco para coreografia, confronto e liberdade.

É nesse capítulo que a conexão deixa de ser apenas uma possibilidade. Lia e Wanessa aparecem dentro de uma das celas, ainda usando referências visuais do clipe anterior, confirmando que foram presas depois dos acontecimentos de “Bumbum no Ar”.

Os detalhes são fundamentais. Lia lê uma edição da revista fictícia POC, cuja capa anuncia um “terremoto”, antecipando o encerramento da saga. Wanessa, por sua vez, registra na parede um plano envolvendo uma cobra, um show e um frigorífico, exatamente os elementos que seriam desenvolvidos em “LOKO!”.

No fim, Gloria rompe o portão da prisão com uma barra de ferro. O mesmo objeto reaparece no início de “YoYo”, criando uma transição direta entre os capítulos.

“LOKO!”: o plano de Wanessa entra em ação

Depois de escapar, Wanessa reaparece como dançarina em uma casa noturna. A apresentação sensual acompanhada por uma cobra parece apenas um espetáculo para os homens do local, mas é parte de uma armadilha.

O clipe revela que a personagem é uma vampira. Ela seduz as vítimas para então atacá-las, numa virada inspirada pelo tipo de terror irreverente associado a filmes como “Um Drink no Inferno”.

O plano esboçado na parede da prisão, portanto, não era apenas uma pista visual: era a preparação para o destino da personagem depois da fuga.

“LOKO!” também amplia o tom fantástico da saga. O Sassiverso deixa de ser somente uma aventura criminal e abraça criaturas sobrenaturais, sem abandonar a ideia de mulheres assumindo o controle diante de figuras masculinas ameaçadoras.

“YoYo”: IZA entra para o time

“YoYo” começa retomando a fuga de Gloria Groove. IZA aparece para resgatá-la, em uma sequência que remete imediatamente a “Telephone”, parceria de Lady Gaga e Beyoncé que se tornou uma das maiores referências de narrativas conectadas no pop.

Mais tarde, uma família apresentada como tradicional assiste ao programa fictício Bafão News. O noticiário informa que terremotos de grande magnitude estão atingindo diferentes regiões do país, retomando a pista deixada na revista lida por Lia em “Coisa Boa”.

A transmissão é então invadida por Gloria e IZA, e a performance rompe o comportamento reprimido daquela casa.

Além de introduzir IZA como personagem, “YoYo” reforça uma das ideias centrais do Sassiverso: a música e a expressão dos corpos funcionam como forças capazes de desorganizar ambientes conservadores.

“Terremoto”: o grande crossover

O encontro definitivo acontece em “Terremoto”, lançado em outubro de 2019. Lia Clark vive escondida e comanda um esquema marcado por notas cor-de-rosa, referências ao chamado pink money e o humor provocador que atravessa toda a saga.

Logo no início, um jornal mostra Lia, Wanessa, Gloria e IZA como procuradas. Outra manchete informa que um sistema de televisão foi hackeado, consequência direta dos acontecimentos de “YoYo”. As pistas espalhadas desde “Coisa Boa” finalmente convergem.

Quando a polícia encontra o esconderijo, Lia pede ajuda. IZA participa da articulação, enquanto Gloria chega para enfrentar a ameaça. O clipe reúne as linhas narrativas e encerra a cronologia principal celebrando aliança, resistência e comunidade.

Wanessa não participa presencialmente do vídeo final, mas sua fotografia entre as procuradas confirma que a vampira de “LOKO!” continua pertencendo àquele mundo.

Quem realmente faz parte desse universo?

O núcleo confirmado do Sassiverso é formado por quatro artistas:

  • Lia Clark, protagonista do começo e do encerramento da saga;
  • Wanessa Camargo, parceira de Lia e estrela do desdobramento sobrenatural;
  • Gloria Groove, líder da rebelião e elo central entre diferentes capítulos;
  • IZA, responsável pelo resgate em “YoYo” e integrante da aliança final.

Por que o Sassiverso foi tão marcante?

O projeto chegou em um momento em que o videoclipe brasileiro consolidava produções cada vez mais ambiciosas. Sassi já era reconhecido pelo visual cinematográfico e por referências a gêneros como terror, ação e fantasia.

No Sassiverso, ele deu um passo além: usou trabalhos lançados por artistas diferentes para manter uma narrativa em andamento durante mais de um ano.

Essa estrutura transformou o público em investigador. Assistir não bastava; era preciso pausar cenas, ler capas de revistas, observar paredes e comparar objetos. Cada descoberta alimentava discussões nas redes sociais e aumentava a expectativa pelo próximo lançamento.

Também existe uma unidade temática. Prisão, perseguição e vigilância representam forças de controle; dança, humor, sexualidade e alianças entre mulheres e artistas LGBTQIA+ aparecem como formas de resistência.

O universo não tenta esconder seu exagero. Pelo contrário: usa a fantasia pop para reagir a um contexto político hostil e imaginar suas protagonistas tomando o poder da própria história.

Um universo brasileiro antes da febre dos multiversos

O Sassiverso provou que o videoclipe podia ultrapassar a função de divulgar uma música. Com cinco produções, quatro estrelas e inúmeras pistas, Felipe Sassi criou uma experiência serializada que ainda recompensa quem decide rever cada capítulo com atenção.

O mais interessante é que nenhuma artista perde sua identidade dentro do conjunto. Lia mantém o deboche, Wanessa vive uma fantasia sombria, Gloria ocupa o centro da rebelião e IZA chega com presença heroica. Juntas, elas constroem um dos crossovers mais criativos do pop nacional.

E, mesmo com “Terremoto” encerrando a história principal, o Sassiverso permanece como uma ideia irresistível: em algum lugar desse mundo, quatro divas continuam procuradas e prontas para provocar uma nova revolução.

Guilherme Esteves
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