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Jogada de Mestre: rivalidade e autodescoberta em um enemies to lovers que vai além do romance

Um livro extenso que passa voando

Jogada de Mestre acompanha Liam e Eric, dois jovens de 18 anos que cresceram cercados pelas mesmas pessoas, mas que, apesar da proximidade entre suas famílias, parecem incapazes de passar muito tempo juntos sem transformar qualquer conversa em provocação. No último ano antes da formatura, os dois precisam lidar não apenas com as decisões sobre o futuro, mas também com uma convivência cada vez mais difícil de evitar e com sentimentos que começam a colocar em dúvida a rivalidade que construíram entre si.

Com personalidades opostas, os dois parecem discordar em praticamente tudo. É a partir dessa relação que V. S. Vilela constrói um enemies to lovers que mistura romance, humor, conflitos familiares e autodescoberta, enquanto aos poucos mostra que Liam e Eric talvez tenham mais em comum do que eles próprios imaginam.

E, apesar do tamanho do livro, Jogada de Mestre é o tipo de leitura que te engole. Você começa pensando “só mais um capítulo” e, quando percebe, já está completamente envolvida com a história. A escrita flui com naturalidade, equilibrando humor, drama e emoção sem deixar a narrativa cansativa.

Boa parte disso vem dos próprios protagonistas. As provocações são constantes, as respostas são afiadas e existe uma química entre os dois que fica cada vez mais difícil de ignorar. Só que, conforme a história avança, fica claro que há muito mais naquela relação do que simplesmente dois garotos que não conseguem se suportar.

Quando a rivalidade esconde algo a mais

O livro parte de uma dinâmica clássica de enemies to lovers, mas a rivalidade entre Liam e Eric não existe apenas para sustentar o trope. Aos poucos, o livro mostra que existem razões mais profundas para algumas das barreiras que os dois construíram entre si.

E talvez uma das partes mais interessantes seja justamente descobrir isso junto com eles. Por trás das provocações existe uma admiração que o leitor começa a perceber antes mesmo dos próprios personagens, mas também há sentimentos, medos e questões que nenhum dos dois parece compreender completamente.

Por isso, acompanhar a relação deles não é apenas esperar pelo momento em que as provocações vão finalmente virar romance. É acompanhar dois personagens tentando entender por que aquela relação mexe tanto com eles e, principalmente, o que precisam enfrentar individualmente para conseguirem vivê-la.

A evolução dos dois é um dos pontos mais bonitos da história. O romance cresce aos poucos e, quando algumas barreiras finalmente começam a cair, existe a sensação de que aquilo foi construído ao longo da narrativa, e não simplesmente colocado ali porque os protagonistas precisavam ficar juntos.

Entre o amor, o medo e a autodescoberta

Mais do que um romance, Jogada de Mestre é uma história sobre crescer e tentar entender quem você é.

Liam e Eric estão no fim da adolescência, enfrentando toda a pressão que acompanha os 18 anos e o último ano antes da formatura: decidir o futuro, corresponder às expectativas da família, entender o que querem da vida e, ao mesmo tempo, descobrir quem estão se tornando. Mesmo para quem já passou dessa fase, é fácil se identificar e sentir aquele nó no peito ao lembrar como é ser tão novo e precisar tomar decisões que parecem tão grandes.

É nesse contexto que o livro também aborda sexualidade, preconceito e aceitação. O processo de descoberta não acontece de forma simples. Há medo, confusão e, principalmente, o peso do preconceito internalizado, mostrando como aquilo que ouvimos e aprendemos ao longo da vida pode interferir até na maneira como enxergamos nossos próprios sentimentos.

A autora também respeita o tempo necessário para esse processo de descoberta. Nem todos os conflitos se resolvem assim que os sentimentos começam a ficar mais claros, e isso é importante para o amadurecimento dos personagens. Existe espaço para compreender o que sentem e, principalmente, separar aquilo que realmente querem daquilo que aprenderam a acreditar sobre si mesmos.

Talvez seja justamente essa descoberta que mais tenha me marcado no livro. É bonito acompanhar os dois se aproximando, mas é ainda mais interessante vê-los se entendendo individualmente e percebendo que algumas das maiores barreiras entre eles não começaram necessariamente com eles.

Uma família que sabe quando estar presente

Os personagens secundários também têm um papel importante nessa jornada, principalmente as famílias que cercam Liam e Eric.

Existe algo muito bonito na maneira como algumas dessas pessoas parecem enxergar mais do que os próprios protagonistas conseguem perceber naquele momento. Em vez de entregar respostas ou decidir por eles, a família funciona muitas vezes como uma rede de apoio, estando presente quando necessário, mas permitindo que os dois façam suas próprias descobertas.

Isso também ajuda a tornar esse universo tão cativante. Os personagens ao redor do casal não parecem existir apenas para preencher cenas ou movimentar o romance principal. As relações familiares têm personalidade própria e ajudam a construir a sensação de que existe uma vida acontecendo para além de Liam e Eric.

Quando a história termina, não fica apenas a vontade de saber mais sobre o casal. Fica também aquela curiosidade de continuar acompanhando a família Tremblay e descobrir as histórias das outras pessoas que passaram por esse primeiro livro.

Vale a pena ler?

Jogada de Mestre é uma leitura envolvente, divertida e, em vários momentos, bastante emocional. V. S. Vilela constrói dois protagonistas imperfeitos e fáceis de amar, sem deixar que o romance apague os conflitos individuais que cada um precisa enfrentar.

O livro possui cenas explícitas e é indicado para maiores de 18 anos, mas elas aparecem de forma pontual dentro da história. O foco continua sendo a relação entre os personagens, seu amadurecimento e todo o processo de descoberta e aceitação que acompanha os dois.

Para quem gosta de enemies to lovers, provocações, personagens que precisam derrubar algumas barreiras antes de admitir o que sentem e romances que também dão espaço para questões familiares e pessoais, esse livro entrega muito mais do que a rivalidade inicial promete.

No fim, talvez a melhor prova disso seja simples: depois de tantas páginas acompanhando Liam e Eric, eu ainda não estava pronta para me despedir da família Tremblay.

Luiza Reyes
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