Livro e HQs

Na Estrada com o Idol: entre o amor, os bastidores do K-pop e a liberdade de ser fã

Um livro leve que toca o coração

Na Estrada com o Idol, de Cris Veríssimo, acompanha Lana Park, uma mulher adulta que carrega um segredo aparentemente simples: ela é fã de K-pop, mas tem vergonha de admitir.

Com medo de ser julgada por gostar de algo que muitos ainda associam exclusivamente a um público mais jovem, Lana guarda seu amor pelo grupo ECLIPSE quase como uma parte escondida de si mesma. Até que uma oportunidade de trabalho a coloca justamente onde jamais imaginou estar: convivendo de perto com os artistas que, até então, conhecia apenas como fã.

É a partir dessa premissa que Cris Veríssimo constrói uma história divertida e envolvente, mas que guarda muito mais sensibilidade do que eu esperava encontrar quando comecei a leitura. Por trás do romance e da fantasia de conhecer os próprios ídolos, existe uma história sobre amadurecimento, expectativas e, principalmente, sobre se permitir gostar das coisas que nos fazem felizes.

Apesar de ser uma leitura rápida e leve, foi justamente esse lado da história que fez o livro permanecer comigo depois da última página.

Existe idade para ser fã?

Talvez uma das coisas que mais tenham me aproximado de Lana seja a vergonha que ela sente de admitir que gosta de K-pop.

Pode parecer algo pequeno, mas é um sentimento que provavelmente não é estranho para muitas pessoas que já ouviram que estavam “velhas demais” para gostar de determinado artista, acompanhar um grupo ou se empolgar com alguma coisa. E, quando falamos de interesses associados principalmente às mulheres, esse julgamento parece ganhar ainda mais força.

Lana internalizou tanto essa ideia que ser fã se tornou quase um segredo. Por isso, acompanhar sua trajetória não é apenas vê-la se aproximar do ECLIPSE. É também vê-la questionar por que algo que lhe traz tanta felicidade deveria ser motivo de vergonha.

E o livro consegue transmitir muito bem uma das partes mais bonitas de fazer parte de um fandom: o sentimento de pertencimento. Aquela sensação de estar cercada por pessoas que talvez você nunca tenha visto antes, mas que entendem perfeitamente a emoção de estar ali porque compartilham o mesmo carinho por algo.

Talvez por já ter vivido esse sentimento, essa parte tenha me tocado tanto. Existe algo muito especial em perceber que você não precisa justificar o que ama para pertencer àquele espaço. Para Lana, se permitir viver isso sem culpa acaba sendo também uma forma de se reencontrar.

Quando o ídolo se torna uma pessoa

Ao colocar uma fã trabalhando diretamente com o grupo que admira, Na Estrada com o Idol também explora uma diferença interessante entre conhecer um artista e conhecer a pessoa que existe por trás dele.

Antes dessa convivência, Lana conhece os integrantes do grupo da mesma maneira que qualquer fã conhece seus ídolos: através das músicas, entrevistas, apresentações e conteúdos que chegam até o público. Ela conhece suas personalidades, ou pelo menos as partes delas que teve a oportunidade de enxergar.

A proximidade revela outras camadas.

Isso não significa que tudo aquilo que ela conhecia fosse falso. O livro trabalha justamente com algo mais interessante: perceber que a imagem pública de alguém nunca consegue representar uma pessoa por completo. Existem inseguranças, desejos, medos e características que simplesmente não cabem naquilo que o público consegue enxergar de longe.

E essa mudança de perspectiva também interfere na maneira como Lana entende os próprios sentimentos. A admiração construída como fã precisa dividir espaço com relações reais, criadas a partir da convivência, e nem sempre a pessoa que imaginamos conhecer corresponde exatamente às expectativas que criamos sobre ela.

É uma escolha que torna o romance mais interessante porque, antes de ser uma história sobre uma fã se apaixonando por um idol, é também uma história sobre aprender a enxergar quem existe por trás dessa palavra.

Um romance que não ignora as consequências

A premissa do livro parte de uma fantasia que provavelmente já passou pela cabeça de muitos fãs, mas a autora não usa isso como desculpa para fazer todos os obstáculos desaparecerem quando eles começam a atrapalhar o romance.

A história constrói uma versão ficcional dos bastidores do K-pop marcada por regras, contratos, exposição pública e pela necessidade de manter uma determinada relação entre artistas, profissionais e fãs. Mesmo sem tratar essa representação como um retrato exato da indústria, são elementos que tornam aquele universo plausível dentro da narrativa.

E, principalmente, as escolhas dos personagens têm consequências.

O sentimento pode existir, mas isso não significa que carreiras, responsabilidades e limites profissionais desapareçam por causa dele. Algumas decisões do livro doem justamente porque não existe uma solução simples capaz de colocar tudo no lugar imediatamente.

Eu, que normalmente sofro quando um romance encontra obstáculos que impedem o casal de simplesmente ficar junto, gostei justamente de perceber que os conflitos não estavam ali apenas para prolongar a história. Eles fazem sentido dentro das regras que o próprio livro estabeleceu.

Isso ajuda a manter os pés da narrativa no chão mesmo quando sua premissa parte de uma fantasia. O romance continua sendo importante, mas não precisa transformar todo o universo ao redor dos personagens para funcionar.

Vale a pena ler?

Na Estrada com o Idol é uma leitura leve, divertida e romântica, mas foi sua sensibilidade ao falar sobre fandom, amadurecimento e pertencimento que mais me conquistou.

Cris Veríssimo parte de uma situação que poderia facilmente se limitar à fantasia de “e se uma fã conhecesse seu idol?” para construir uma história que também questiona o que significa conhecer verdadeiramente alguém, o peso das expectativas que criamos e a vergonha que muitas pessoas aprendem a sentir pelas coisas que amam.

É claro que quem conhece o universo do K-pop provavelmente vai reconhecer sentimentos, situações e discussões que tornam a experiência ainda mais próxima. Mas a essência da história vai além disso. Lana está aprendendo a separar aquilo que os outros esperam dela daquilo que realmente a faz feliz.

E talvez tenha sido justamente por isso que esse livro tenha me abraçado de um jeito tão inesperado, ele me lembrou que ser fã é, no fim das contas, só mais uma forma bonita de amar.

Luiza Reyes
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