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365 – Novos Caminhos: romance, ativismo e recomeços em Londres

Recomeçar do outro lado do mundo

Depois de sair de um relacionamento abusivo, Marina Dias decide recomeçar a vida longe de tudo que conhecia. O destino é Londres, onde pretende terminar a faculdade de Direito e construir uma nova história ao lado de sua inseparável gata Capitu.

Só que esse novo começo rapidamente se torna muito maior do que uma mudança de país. Ao se aproximar de um grupo de ativistas locais, Marina acaba envolvida na luta para proteger um centro comunitário ameaçado pelos interesses de uma poderosa construtora. Aos poucos, aquilo que começou como um recomeço individual passa a se misturar com as histórias e os problemas das pessoas que ela encontra pelo caminho.

E talvez seja justamente essa mistura que torne 365 – Novos Caminhos tão envolvente. Existe romance, humor e toda a experiência de Marina tentando reconstruir a própria vida, mas existe também uma comunidade pela qual vale a pena lutar.

Uma protagonista brasileira, caótica e impossível de não amar

Marina é facilmente uma das grandes razões pelas quais gostei tanto desse livro.

Existe muita coragem na decisão de deixar para trás uma vida inteira e tentar começar novamente em outro país, principalmente depois de tudo que ela viveu. Mas gosto do fato de essa força não transformar Marina em uma protagonista que parece inabalável. Ela continua descobrindo o que quer, cometendo erros, enfrentando seus próprios medos e tentando encontrar seu lugar naquela nova vida.

E ela é muito divertida.

Sua brasilidade aparece de uma forma que dá personalidade à personagem, principalmente nos momentos em que as emoções falam mais alto e algumas expressões em português simplesmente escapam. São pequenos detalhes que fazem Marina parecer mais próxima e espontânea, sem que sua nacionalidade exista apenas como uma informação colocada na ficha da personagem.

Capitu, as plantas, as velas e todos os pequenos elementos que fazem parte de sua rotina também ajudam a construir essa personalidade. Existe algo aconchegante no universo particular que ela leva consigo para Londres, como se, enquanto tenta descobrir onde pertence naquele novo lugar, também carregasse pequenos pedaços de casa.

É uma protagonista teimosa, engraçada, um pouco caótica e, principalmente, muito humana. E foi muito fácil torcer por ela.

Entre provocações e novos sentimentos

No meio de todas essas mudanças está Anthony, reservado, rabugento e praticamente o oposto da energia de Marina.

A dinâmica entre os dois funciona justamente pelo contraste. As provocações continuam aparecendo mesmo conforme a relação começa a ganhar novas camadas, e uma coisa de que gostei bastante é que o romance não precisa apagar a personalidade dos personagens para funcionar. Marina continua sendo Marina, Anthony continua sendo Anthony e, ainda assim, eles aprendem a encontrar espaço um no outro.

365 – Novos Caminhos brinca com a dinâmica de enemies to lovers, mas o que sustenta a relação não é apenas a tensão das primeiras interações. Aos poucos, respeito, parceria e cumplicidade passam a ocupar tanto espaço quanto as implicâncias.

E isso torna a evolução dos dois muito gostosa de acompanhar. O interesse não surge porque a narrativa simplesmente decide que chegou a hora de transformar rivalidade em romance. Conforme conhecemos melhor os personagens, também começamos a entender o que existe por trás das primeiras impressões e por que aquela relação consegue funcionar apesar de tantas diferenças.

Para mim, é justamente aí que está boa parte do charme do casal: eles podem até aprender a gostar um do outro, mas isso não significa que precisam parar de implicar um com o outro.

Quando recomeçar também significa pertencer

Apesar de o romance ter bastante espaço, a história de Marina não gira apenas em torno de Anthony.

A luta para proteger o centro comunitário conecta sua jornada pessoal a algo maior. Ao se envolver com os ativistas e conhecer as pessoas afetadas pelas ações da construtora, Marina começa a construir vínculos em uma cidade que, até pouco tempo antes, era completamente nova para ela.

E gostei bastante de como essas duas coisas caminham juntas. Ela chega a Londres tentando reconstruir a própria vida e, no processo, acaba encontrando pessoas e causas que fazem com que aquele lugar comece a significar mais do que simplesmente o país para onde ela decidiu fugir.

O ativismo também permite que a história trate de questões como abuso de poder e xenofobia sem abandonar o humor e o romance que tornam a leitura tão leve. Há momentos mais sérios, mas eles convivem com as provocações, amizades, confusões e pequenas cenas do cotidiano.

Mais do que servir apenas como um conflito externo para movimentar a trama, essa luta ajuda a construir a ideia de pertencimento que atravessa a história. Recomeçar, para Marina, não significa apenas deixar algo para trás. Também significa descobrir o que ela quer construir no lugar que escolheu para seguir em frente.

Vale a pena ler?

365 – Novos Caminhos foi uma daquelas leituras que conseguiu me conquistar tanto pelo romance quanto pela personagem que existe fora dele.

A escrita de Nicole Oliveira é leve e fluida, com bastante espaço para diálogos e humor, mesmo quando a história passa por temas mais delicados. O livro também possui cenas explícitas pontuais e é indicado para maiores de 18 anos, mas o conteúdo sexual não é o foco da narrativa.

Para quem gosta de enemies to lovers, protagonistas brasileiras, personagens rabugentos, histórias de recomeço e romances que dividem espaço com conflitos que vão além do casal, é uma leitura que entrega um pouco de tudo isso sem perder sua identidade.

Mas, para mim, o que ficou depois da leitura foi principalmente Marina. Sua coragem de começar novamente, seu jeito caótico de enfrentar as coisas, a brasilidade que aparece nos pequenos detalhes e a maneira como, pouco a pouco, ela transforma um lugar desconhecido em parte da própria história.

No fim, esse livro fala sobre recomeçar, mas também sobre perceber que encontrar um novo caminho não significa necessariamente caminhar sozinha.

Luiza Reyes
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Luiza Reyes

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