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Garotas Cruéis Merecem Pagar: um dark romance intenso entre traumas, segredos e suspense

Emily perdeu a mãe ainda criança, assassinada quando ela tinha apenas oito anos, e desde então vive com o avô em uma propriedade pertencente à poderosa família Walton. A morte, de certa forma, sempre esteve presente em sua vida: ao lado da propriedade fica o cemitério da família, e é na funerária dos Walton que ela trabalha já adulta.

As coisas começam a ficar ainda mais estranhas quando ela percebe que está sendo observada por um stalker mascarado que parece conhecer muito mais sobre sua rotina do que deveria.

A partir daí, o livro mistura dark romance, suspense e investigação em uma história na qual praticamente todo mundo parece ter alguma coisa para esconder. O passado de Emily, os segredos da família Walton e os crimes que cercam a cidade começam a se misturar, criando um mistério que se torna cada vez mais complexo conforme a leitura avança.

Uma protagonista moldada pelo trauma

Emily definitivamente não é uma protagonista fácil.

A perda da mãe ainda na infância, a convivência com um avô violento e outras experiências traumáticas deixaram marcas profundas na maneira como ela entende afeto, segurança, desejo e controle. Existe uma contradição muito grande na personagem: ao mesmo tempo em que é extremamente carente, aprendeu a sobreviver sendo autossuficiente.

O livro trabalha bastante a relação entre trauma e desejo, principalmente na maneira como experiências de violência podem interferir na forma como uma pessoa passa a compreender os próprios limites e relacionamentos. Emily busca dinâmicas que, vistas de fora, podem ser difíceis de entender, mas que fazem sentido dentro da construção psicológica apresentada para ela.

Isso não significa que seja fácil acompanhar suas escolhas ou concordar com elas. Muitas vezes não é. Mas existe uma diferença entre se identificar com uma personagem e conseguir compreender de onde determinados comportamentos podem estar vindo, e acho que Emily funciona justamente nesse espaço desconfortável.

Romance, obsessão e personagens igualmente quebrados

Embora Emily esteja no centro da história, a narrativa também alterna pontos de vista e nos permite conhecer melhor Drake, o patriarca da família Walton.

Ele também é profundamente marcado pelo passado, e boa parte daquilo que sabemos sobre ele vai sendo revelada aos poucos. Algumas atitudes começam a ganhar novas camadas conforme entendemos melhor as perdas, os segredos e as relações que moldaram aquele personagem.

E “romance” talvez seja uma palavra simples demais para descrever algumas das relações deste livro.

Os vínculos são intensos, complicados e muitas vezes perturbadores. Existe desejo, obsessão, controle, violência e uma série de dinâmicas que fazem sentido dentro da proposta de um dark romance, mas que estão muito longe de representar relacionamentos saudáveis.

O livro também brinca bastante com as expectativas em relação aos personagens da família Walton. Em diferentes momentos, as suspeitas mudam de direção e pessoas que pareciam ocupar determinado papel começam a revelar outras camadas. Algumas pistas permitem levantar teorias antes das revelações, mas, para mim, isso fazia parte da graça de tentar descobrir o que realmente estava acontecendo.

Uma cidade onde todo mundo parece esconder alguma coisa

Uma das coisas de que mais gostei foi perceber que o suspense não dependia exclusivamente de descobrir quem estava por trás da máscara.

Existe uma trama maior envolvendo a cidade e seu passado. São crimes antigos, segredos familiares, relações de poder, mentiras e revelações que começam a se conectar conforme a investigação avança.

E é muita coisa acontecendo. Em uma história com tantas subtramas e reviravoltas, seria fácil perder o controle, mas, para mim, as principais peças conseguiram se encaixar. Era aquela sensação de começar a montar uma teoria, mudar de ideia algumas páginas depois e continuar procurando respostas.

Foi esse lado de investigação que me manteve tão envolvida na leitura. O dark romance está muito presente, mas o livro também constrói um mistério que funciona por conta própria e faz querer entender até onde vão os segredos daquela cidade.

Um dark romance que realmente vai longe

Garotas Cruéis Merecem Pagar é uma obra adulta e trabalha com temas como violência, abuso, stalking, luto, BDSM, sadomasoquismo, dominação, humilhação e relações de poder. Por isso, vale conferir com atenção os avisos de conteúdo antes de começar a leitura.

As cenas explícitas também fazem parte da construção psicológica dos personagens. No caso de Emily, principalmente, desejo, dor, submissão e controle estão relacionados à maneira como ela aprendeu a lidar com suas próprias experiências e emoções.

Isso não torna todas as dinâmicas apresentadas saudáveis, e nem acho que essa seja a intenção. São personagens muito feridos tomando decisões questionáveis dentro de relações igualmente complicadas.

É uma leitura que exige certa maturidade justamente porque não suaviza essas dinâmicas. Mesmo para quem já lê dark romance, é importante entrar sabendo que alguns dos temas e situações apresentados são bastante pesados.

Vale a pena ler?

Para quem gosta de dark romance e também procura suspense e investigação, Garotas Cruéis Merecem Pagar consegue juntar muito bem esses elementos.

Foi principalmente o mistério que me manteve presa à história. Gostei de tentar montar as peças, desconfiar dos personagens e perceber aos poucos como acontecimentos que pareciam separados estavam conectados.

Emily também contribui muito para isso. É uma protagonista difícil, contraditória e marcada por experiências que influenciam diretamente suas escolhas. Não é necessário concordar com ela para conseguir compreender a lógica por trás de muitos de seus comportamentos.

É um livro que eu recomendaria principalmente para quem já está familiarizado com histórias mais pesadas e se sente confortável com a proposta do gênero, sempre prestando atenção aos avisos de conteúdo.

No fim, foi uma experiência envolvente o suficiente para me fazer querer respostas e pesada o suficiente para não me deixar esquecer que tipo de história eu estava lendo.

Luiza Reyes
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