Um guarda-roupa capaz de transportar crianças para outro mundo, um leão que representa esperança e uma feiticeira responsável por mergulhar uma terra mágica em um inverno aparentemente interminável. Para diferentes gerações, esses elementos ajudaram a transformar As Crônicas de Nárnia em uma das sagas de fantasia mais conhecidas da literatura.
Agora, quase duas décadas depois da última grande adaptação para o cinema, esse universo está pronto para retornar.
A Netflix divulgou o primeiro trailer de Nárnia: O Sobrinho do Mago, novo filme escrito e dirigido por Greta Gerwig, responsável por Lady Bird, Adoráveis Mulheres e pelo fenômeno Barbie. A produção promete apresentar a origem de Nárnia, muito antes de quatro irmãos atravessarem um guarda-roupa e conhecerem o reino de Aslan.
Mas o que diferencia essa nova adaptação das anteriores? E por que começar justamente por um livro que demorou anos para ser publicado?
Antes do guarda-roupa, existia uma história
As Crônicas de Nárnia é formada por sete livros escritos por C. S. Lewis e publicados entre 1950 e 1956.
A saga começou com O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa, no qual Pedro, Susana, Edmundo e Lúcia Pevensie descobrem uma passagem secreta para Nárnia. O sucesso da história fez com que Lewis continuasse expandindo aquele universo, criando novas aventuras, personagens e períodos históricos.
Os livros foram publicados originalmente nesta ordem:
- O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa
- Príncipe Caspian
- A Viagem do Peregrino da Alvorada
- A Cadeira de Prata
- O Cavalo e seu Menino
- O Sobrinho do Mago
- A Última Batalha
No entanto, as edições atuais costumam apresentar os volumes seguindo a cronologia dos acontecimentos. Nesse formato, O Sobrinho do Mago aparece como o primeiro livro, pois explica a criação de Nárnia e acontecimentos que antecedem a chegada dos irmãos Pevensie.
O próprio Lewis chegou a demonstrar simpatia pela leitura cronológica, embora também tenha reconhecido que a saga não foi planejada completamente desde o início. Por isso, até hoje, fãs discutem qual é a melhor maneira de conhecer esse universo.
O que acontece em O Sobrinho do Mago?
A história acompanha Digory Kirke e Polly Plummer, duas crianças que vivem em Londres e acabam envolvidas nos experimentos do excêntrico tio André.
Utilizando anéis mágicos, Digory e Polly são enviados para o Bosque entre os Mundos, um lugar repleto de lagos que funcionam como portais para diferentes realidades. Durante a exploração, eles chegam a Charn, um mundo destruído no qual encontram a poderosa rainha Jadis.
A tentativa de voltar para casa desencadeia uma sequência de acontecimentos que leva os personagens a presenciarem o nascimento de Nárnia. É nesse momento que Aslan surge e cria aquele universo por meio de sua voz e de sua música.
O livro também explica a origem da Feiticeira Branca, do lampião localizado no meio da floresta e do próprio guarda-roupa que posteriormente conduziria Lúcia até Nárnia.
Embora tenha sido o sexto volume publicado, O Sobrinho do Mago funciona como uma verdadeira história de origem. Greta Gerwig escolheu justamente esse ponto para iniciar a nova franquia, transformando o filme na primeira adaptação completa do livro para as telas.
Sete livros e diferentes formas de conhecer Nárnia
Depois da criação apresentada em O Sobrinho do Mago, a cronologia segue para O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa, a aventura mais conhecida da saga.
Em O Cavalo e seu Menino, acompanhamos uma história ocorrida durante o período em que os irmãos Pevensie governavam Nárnia. Príncipe Caspian mostra o retorno deles a um reino completamente diferente, no qual centenas de anos se passaram.
A Viagem do Peregrino da Alvorada leva Edmundo, Lúcia e o primo Eustáquio para uma expedição marítima. Já A Cadeira de Prata acompanha Eustáquio e Jill Pole em uma missão para encontrar um príncipe desaparecido.
A saga termina com A Última Batalha, um volume mais sombrio que aborda o fim de Nárnia e reúne personagens de diferentes momentos da série.
Apesar da aparência de fantasia infantil, os livros discutem temas como amadurecimento, coragem, tentação, poder, perda, fé e responsabilidade. As referências cristãs presentes na obra de Lewis são evidentes, especialmente na figura de Aslan, mas as histórias também encontram espaço para mitologia, contos de fadas e diferentes tradições literárias.
Nárnia já passou várias vezes pelas telas
A nova produção da Netflix está longe de ser a primeira tentativa de transportar Nárnia para outro formato.
O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa ganhou uma adaptação britânica para televisão em 1967. Em 1979, a história foi transformada em um especial animado que recebeu o Emmy de Melhor Programa de Animação.
Entre 1988 e 1990, a BBC produziu uma versão que se tornou especialmente querida entre os leitores. A série combinava atores, animações e criaturas animatrônicas para adaptar quatro livros: O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa, Príncipe Caspian, A Viagem do Peregrino da Alvorada e A Cadeira de Prata. Originals for BBC
Mesmo com as limitações visuais da época, essa adaptação ficou conhecida pela proximidade com os textos de C. S. Lewis. Para parte do público, foi também o primeiro contato com personagens que mais tarde ganhariam versões muito maiores no cinema.
A trilogia que levou Nárnia aos cinemas
A versão mais popular chegou em 2005 com As Crônicas de Nárnia: O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa, dirigido por Andrew Adamson.
Com Georgie Henley, Skandar Keynes, Anna Popplewell e William Moseley interpretando os irmãos Pevensie, o filme apresentou uma Nárnia grandiosa, repleta de criaturas digitais, batalhas e cenários que marcaram uma geração.
Tilda Swinton assumiu o papel da Feiticeira Branca, enquanto Liam Neeson emprestou sua voz a Aslan na versão original. O longa arrecadou mais de 720 milhões de dólares mundialmente e parecia iniciar uma franquia capaz de acompanhar todos os livros.
Em 2008, Príncipe Caspian trouxe uma história mais sombria e uma Nárnia transformada pelo tempo. Apesar da produção grandiosa, o filme teve um desempenho comercial inferior ao primeiro.
A terceira adaptação, A Viagem do Peregrino da Alvorada, chegou em 2010 com uma nova distribuidora. O longa manteve parte do elenco, apresentou o navio que dá nome à história e introduziu Eustáquio, interpretado por Will Poulter.
Depois disso, a franquia não continuou. A Cadeira de Prata chegou a ser anunciada como o próximo projeto, mas nunca foi produzida. Assim, personagens, lugares e acontecimentos de quatro dos sete livros permaneceram ausentes do cinema.
Greta Gerwig começa por um caminho diferente
Em vez de refazer imediatamente O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa, Greta Gerwig decidiu começar pelo nascimento daquele universo.
A escolha de O Sobrinho do Mago permite que a nova adaptação apresente sua própria identidade antes de reencontrar os acontecimentos mais conhecidos. Também oferece a oportunidade de introduzir Jadis antes que ela se torne a Feiticeira Branca e explicar como determinados objetos passaram a fazer parte de Nárnia.
No trailer, Digory e Polly descobrem os anéis mágicos, atravessam o Bosque entre os Mundos e despertam Jadis em Charn. As imagens também mostram o caos provocado pela personagem em Londres, o cavalo alado Pluma e os primeiros instantes da criação de Nárnia.
Aslan aparece cercado por uma atmosfera cósmica, reforçando a ideia de que o filme pretende transformar o nascimento daquele mundo em um grande espetáculo visual.
O elenco reúne David McKenna e Beatrice Campbell como os jovens protagonistas, além de Emma Mackey, Daniel Craig, Carey Mulligan, Ciarán Hinds e Meryl Streep. A trilha sonora será composta por Mark Ronson e Andrew Wyatt, que também trabalharam com Gerwig em Barbie.
A diretora de Barbie diante de outro universo conhecido
Greta Gerwig já demonstrou que sabe trabalhar com histórias conhecidas sem simplesmente repeti-las.
Em Adoráveis Mulheres, a diretora reorganizou a narrativa do livro de Louisa May Alcott e encontrou uma maneira própria de explorar as escolhas, os relacionamentos e as ambições das personagens. Em Barbie, transformou uma marca mundialmente reconhecida em uma história sobre identidade, expectativas e o lugar que ocupamos no mundo.
Nárnia apresenta um desafio diferente.
Gerwig precisa preservar o encantamento da obra de C. S. Lewis, lidar com seus elementos religiosos e construir um universo capaz de conquistar tanto os leitores quanto uma nova geração. Ao mesmo tempo, terá que mostrar que a produção não existe apenas para reproduzir a trilogia anterior com efeitos visuais atualizados.
A escolha de O Sobrinho do Mago já indica que a diretora não pretende seguir o caminho mais óbvio.
Segundo Gerwig, a imagem de um leão cósmico cantando um universo inteiro para a existência permaneceu com ela desde a infância. A ideia de um mundo construído por música orientou sua maneira de imaginar o filme.
Uma fantasia pensada para o cinema
Apesar de ser uma produção da Netflix, Nárnia: O Sobrinho do Mago terá um lançamento amplo nos cinemas e sessões antecipadas em IMAX.
No Brasil, o filme está previsto para chegar às salas em 11 de fevereiro de 2027. Posteriormente, será lançado mundialmente na Netflix em 2 de abril.
A estratégia demonstra a dimensão do projeto e a intenção de transformar o retorno de Nárnia em um acontecimento cinematográfico. O filme também representa uma mudança importante para a própria Netflix, que normalmente trabalha com períodos mais limitados de exibição nos cinemas.
O trailer aposta em criaturas, mundos diferentes, figurinos elaborados e imagens cósmicas, mas a verdadeira força da adaptação dependerá de algo muito mais simples: fazer o público acreditar novamente que uma passagem para outro universo pode estar escondida dentro de qualquer lugar aparentemente comum.
Nárnia ainda consegue despertar o mesmo encanto?
A nova adaptação carrega grandes expectativas. A trilogia iniciada em 2005 ainda ocupa um espaço afetivo importante, especialmente para quem cresceu acompanhando os irmãos Pevensie.
Ao mesmo tempo, os livros oferecem muito mais do que aquilo que já apareceu nos cinemas.
Começar por O Sobrinho do Mago significa apresentar uma parte inédita da saga e permite que Greta Gerwig construa sua própria interpretação desde o nascimento de Nárnia. O trailer revela uma produção ambiciosa, mas também interessada no sentimento de descoberta que sempre esteve no centro das histórias de C. S. Lewis.
Ainda é cedo para saber se essa nova versão encontrará o equilíbrio entre espetáculo, emoção e fidelidade. Mas existe algo especialmente interessante em retornar a Nárnia não pelo guarda-roupa que todos conhecemos, mas pelo momento em que aquele mundo respirou pela primeira vez.
E você, conheceu Nárnia pelos livros, pela série da BBC ou pelos filmes dos anos 2000?