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The Rocky Horror Picture Show: como um fracasso virou a festa mais cult do cinema

Um casal perdido em uma estrada escura. Um castelo cheio de figuras excêntricas. Um cientista de salto alto decidido a criar o homem perfeito. Bastam alguns minutos para perceber que The Rocky Horror Picture Show não pretende seguir nenhuma regra.

Lançado em 1975, o musical mistura comédia, terror, ficção científica, glam rock, sensualidade e exagero em uma experiência que ultrapassou as telas. O filme fracassou inicialmente, mas encontrou seu verdadeiro público nas sessões da meia-noite, onde espectadores fantasiados começaram a responder aos personagens, repetir coreografias e transformar cada exibição em uma festa coletiva.

Cinco décadas depois, Rocky Horror continua sendo um convite para celebrar tudo aquilo que parece estranho demais para caber no mundo comum.

Uma noite que muda tudo

A história acompanha Brad Majors e Janet Weiss, um casal recém-noivado que enfrenta problemas com o carro durante uma noite chuvosa.

Em busca de ajuda, os dois encontram um castelo isolado e decidem bater à porta. O que parecia ser apenas um pedido por telefone rapidamente os coloca no centro de uma convenção comandada pelo extravagante Dr. Frank-N-Furter.

Interpretado por Tim Curry, Frank-N-Furter é um cientista vindo do planeta Transexual, na galáxia da Transilvânia. Naquela noite, ele pretende apresentar sua maior criação: Rocky, um homem construído para representar sua ideia de perfeição.

A chegada de Brad e Janet ao castelo inicia uma sequência de descobertas, desejos, ciúmes e revelações. Tudo acontece enquanto o filme brinca com os clichês dos antigos longas de terror e ficção científica, especialmente as histórias sobre cientistas obcecados, criaturas artificiais e mansões cheias de segredos.

O resultado é uma paródia que também funciona como musical, comédia sexual e celebração do exagero.

Antes do cinema, Rocky Horror nasceu no teatro

A história foi criada por Richard O’Brien e apresentada originalmente como The Rocky Horror Show. O espetáculo estreou em 19 de junho de 1973 no pequeno Theatre Upstairs, do Royal Court Theatre, em Londres, com direção de Jim Sharman.

Tim Curry interpretava Frank-N-Furter, enquanto Richard O’Brien assumia o papel de Riff Raff. Patricia Quinn vivia Magenta e Little Nell interpretava Columbia. Os quatro retornariam posteriormente para a adaptação cinematográfica.

O sucesso nos palcos levou a produção para espaços maiores e abriu caminho para o filme, novamente dirigido por Jim Sharman e escrito por ele ao lado de O’Brien.

Na versão cinematográfica, o elenco ganhou Susan Sarandon como Janet, Barry Bostwick como Brad, Peter Hinwood como Rocky, Meat Loaf como Eddie, Jonathan Adams como Dr. Scott e Charles Gray como o Criminologista.

Lançado em 1975, o filme mistura elementos da montagem teatral com referências aos antigos filmes B. A famosa abertura com os lábios vermelhos cantando “Science Fiction/Double Feature” já anuncia que aquela história conhece profundamente o gênero que pretende homenagear e provocar.

Tim Curry transforma Frank-N-Furter em um ícone

É difícil imaginar The Rocky Horror Picture Show sem Tim Curry.

Sua interpretação combina autoridade, humor, sensualidade e uma confiança quase hipnótica. Frank-N-Furter entra em cena usando corset, meia arrastão, maquiagem carregada e salto alto, dominando imediatamente o castelo, os convidados e a própria câmera.

A performance não funciona apenas por causa do figurino. Curry constrói um personagem imprevisível, capaz de alternar sedução, crueldade, vulnerabilidade e fúria dentro da mesma sequência.

Frank-N-Furter também confrontava de maneira direta as expectativas de gênero e sexualidade presentes no cinema da década de 1970. Alguns termos utilizados pelo personagem pertencem ao contexto daquela época e podem soar ultrapassados atualmente. Ainda assim, sua presença abriu espaço para uma expressão de desejo, identidade e liberdade que raramente ocupava o centro de uma produção cinematográfica.

O personagem não pede licença para existir. Ele simplesmente entra em cena e exige que todos acompanhem seu espetáculo.

Uma trilha sonora impossível de ignorar

Grande parte da força de Rocky Horror está em suas músicas.

“Dammit Janet” apresenta Brad e Janet como o casal aparentemente perfeito. “Over at the Frankenstein Place” conduz os dois até o castelo. “Sweet Transvestite” transforma a chegada de Frank-N-Furter em uma das apresentações mais marcantes dos musicais.

Também existem momentos como “Touch-a, Touch-a, Touch Me”, “Hot Patootie”, “Rose Tint My World” e “I’m Going Home”, que ajudam a revelar desejos, frustrações e mudanças nos personagens.

Mas nenhuma canção se tornou tão associada ao filme quanto “Time Warp”.

A coreografia simples, apresentada como uma sequência de instruções, convida o público a levantar da cadeira e participar. O número resume perfeitamente a experiência de Rocky Horror: não basta apenas assistir. Em algum momento, o filme espera que você entre na brincadeira.

O fracasso que encontrou seu público à meia-noite

Apesar do sucesso do espetáculo teatral, a adaptação cinematográfica não teve uma boa recepção inicial.

O filme foi lançado nos Estados Unidos em setembro de 1975, fracassou em várias cidades e acabou retirado de circulação. A situação começou a mudar quando a produção ganhou sessões da meia-noite no Waverly Theater, em Nova York, a partir de abril de 1976.

O público passou a retornar semanalmente. Algumas pessoas apareciam fantasiadas, outras respondiam aos diálogos e, pouco a pouco, performances começaram a acontecer diante da tela.

Nasciam os chamados shadow casts, grupos que reproduzem as cenas e coreografias ao vivo enquanto o filme é exibido ao fundo.

As respostas gritadas, os figurinos, os objetos utilizados durante determinadas cenas e a participação coletiva transformaram cada sessão em um evento diferente. A plateia deixou de ocupar um lugar passivo e passou a fazer parte da obra.

Essa relação foi tão importante que a Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos descreveu Rocky Horror como o grande filme da meia-noite e reconheceu sua influência sobre as formas de participação do público no cinema. Em 2005, a produção foi incluída no National Film Registry por sua relevância cultural, histórica e estética.

Um lugar para quem sempre se sentiu estranho

O legado de The Rocky Horror Picture Show também está ligado à comunidade LGBTQIAPN+ e a diferentes grupos que encontraram nas sessões um espaço de liberdade.

O filme questiona comportamentos considerados normais, brinca com a imagem do casal tradicional e permite que seus personagens explorem desejos que tentavam reprimir. Sua estética camp transforma aquilo que poderia ser tratado como vergonha em espetáculo.

As sessões também criaram ambientes nos quais muitas pessoas podiam experimentar figurinos, performances e formas de expressão que não encontravam espaço em outros lugares. O American Film Institute destaca justamente como o fenômeno ofereceu um lugar de pertencimento para pessoas LGBTQIA+, artistas e indivíduos que se reconheciam como outsiders.

Isso não significa que o filme esteja acima de críticas. Parte de sua linguagem e algumas escolhas narrativas refletem os limites da década de 1970. Reconhecer seu impacto cultural não exige ignorar os elementos que envelheceram.

Talvez sua maior força esteja na mensagem que atravessou gerações: “Não sonhe, seja”.

O musical perfeito para uma noite de Halloween

The Rocky Horror Picture Show pode não ser assustador como outros clássicos do terror, mas poucos filmes combinam tão bem com o Halloween.

Existem castelos, laboratórios, criaturas, assassinatos, tempestades e referências a Frankenstein. Ao mesmo tempo, tudo é conduzido como uma festa cheia de música, desejo, humor e figurinos inesquecíveis.

Mais do que um filme para assistir, Rocky Horror é uma experiência para compartilhar. É a oportunidade de cantar, dançar, se fantasiar e celebrar o estranho sem qualquer constrangimento.

O longa começou como uma homenagem irreverente aos filmes B, fracassou em seu lançamento e acabou se tornando um dos maiores fenômenos cult da história do cinema. Sua permanência não aconteceu porque o público simplesmente continuou assistindo.

Aconteceu porque o público decidiu fazer parte dele.

E você, já fez o “Time Warp” ou ainda precisa visitar o castelo de Frank-N-Furter pela primeira vez?

Guilherme Esteves
Sobre quem escreveu

Guilherme Esteves

Guilherme Esteves é escritor, profissional de marketing e Head de Conteúdo do Portal Espectro. Apaixonado por cultura pop e boas histórias, escreve sobre livros, filmes, séries, games e tudo aquilo que merece ser descoberto, comentado e compartilhado.

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