Quando começar já é uma vitória
Serena passou os últimos anos dedicando boa parte da vida cuidando da mãe, que enfrentava um câncer. Depois de perdê-la, precisa lidar não apenas com o luto, mas também com crises de ansiedade e pânico que começam a afetar cada vez mais sua rotina.
É nesse momento que sua terapeuta propõe uma última tentativa antes de partir para outra abordagem: incluir a atividade física em seu dia a dia.
Do outro lado dessa história está Gustavo, dono de uma academia que enfrenta dificuldades e precisa encontrar uma forma de atrair novos alunos e, principalmente, fazer com que eles permaneçam por lá. Para ele, o verão é quase um pesadelo: a academia enche de pessoas determinadas a mudar de vida, mas boa parte desaparece pouco tempo depois.
Serena acaba sendo uma dessas novas alunas e seu primeiro encontro com Gustavo está longe de ser amigável. A situação fica ainda mais complicada quando os dois descobrem que precisarão trabalhar juntos. Serena atua com marketing, e a empresa em que trabalha é justamente a responsável por desenvolver uma nova campanha para a academia.
A ideia é acompanhar uma pessoa real desde o início de sua jornada com os exercícios. Gustavo aceita participar do projeto com uma condição: Serena será essa pessoa.
Duas formas diferentes de enxergar o exercício
Uma das coisas de que mais gostei em Projeto Verão é como Serena e Gustavo começam a história enxergando a atividade física de lugares completamente diferentes. Para ela, conseguir frequentar a academia já é parte de um processo muito maior de tentar cuidar de si mesma enquanto atravessa o luto e enfrenta sua saúde mental.
Gustavo tem uma relação completamente diferente com o exercício. Sua própria história fez com que ele associasse atividade física a disciplina, persistência e superação, e isso também influencia a maneira como julga aqueles que começam a treinar e simplesmente desaparecem algumas semanas depois.
O interessante é que o livro permite entender de onde vêm as duas perspectivas sem precisar transformar uma delas na resposta certa.
Ao acompanhar Serena, Gustavo também precisa perceber que nem todo mundo chega à academia com a mesma história, os mesmos objetivos ou as mesmas condições. Às vezes, aquilo que para uma pessoa parece falta de disciplina pode representar uma batalha que ela simplesmente não consegue enxergar.
E Serena, por sua vez, começa a descobrir que o exercício pode ocupar um espaço em sua vida que não tem relação apenas com aparência ou com a ideia de conquistar um determinado corpo para o verão.
É justamente por isso que o título funciona tão bem. O “projeto verão” que começa como uma campanha de marketing acaba ganhando um significado muito maior para os personagens.
Uma vida que começa a se abrir novamente
Mas a transformação de Serena não acontece apenas dentro da academia. Durante muito tempo, sua vida esteve voltada para a doença da mãe. Depois da perda, ela se fecha ainda mais, evita sair com as pessoas do trabalho e parece ter esquecido um pouco como é simplesmente viver para si mesma.
Serena é mais reservada e carrega muitas inseguranças, mas isso não significa que seja uma personagem passiva. Logo nos primeiros embates com Gustavo, ela mostra que sabe responder à altura e não abaixa a cabeça só porque ele resolveu implicar com ela.
Ao longo da história, é muito bonito acompanhar essa personagem começando, aos poucos, a permitir que outras coisas façam parte da sua vida. Novas amizades, experiências e vínculos aparecem enquanto ela tenta descobrir quem é depois de passar tanto tempo vivendo em função de uma situação tão difícil.
Também gostei especialmente da sensibilidade com que o livro aborda sua saúde mental. A atividade física faz parte desse processo e traz mudanças importantes, mas não é apresentada como uma solução milagrosa para ansiedade, crises de pânico ou luto.
Serena continua precisando olhar para a própria saúde e entender o que funciona para ela. O romance também não aparece como aquilo que vai simplesmente consertá-la. Existem questões que só ela pode enfrentar e decisões que precisa tomar pensando primeiro em si mesma.

Entre provocações, amizade e romance
Gustavo causa uma primeira impressão nada agradável, mas não demora para mostrar que existe muito mais por trás daquele dono de academia rabugento.
Mesmo quando os dois ainda mal se conhecem, ele consegue ser atencioso nos momentos em que Serena realmente precisa. Conforme ela passa a fazer parte de sua rotina, também começa a conhecer o homem extremamente amoroso e protetor que existe na relação com os amigos e com as pessoas que considera família.
E essa descoberta acontece dos dois lados.
Assim como Gustavo começa a questionar algumas das próprias certezas ao conhecer Serena, ela também percebe que sua primeira impressão sobre ele estava longe de mostrar tudo.
Gostei principalmente de como o relacionamento vai sendo construído através dessa troca. Os dois carregam suas próprias dores e medos, e não existe apenas uma pessoa salvando a outra. Em momentos diferentes, Gustavo consegue oferecer segurança para Serena, enquanto ela também está presente quando é ele quem precisa enfrentar questões do próprio passado.
O romance vai surgindo no meio dessa parceria, mas o livro dá tempo para que a relação se desenvolva. Mesmo quando os sentimentos ficam mais evidentes, isso não significa que todos os obstáculos desaparecem imediatamente.
E, apesar de ser um livro relativamente longo, isso não me incomodou. Pelo contrário: para mim, fazia sentido que nem tudo se resolvesse assim que os personagens percebessem o que sentiam. Algumas coisas precisam de tempo, principalmente em uma história que fala tanto sobre aprender a seguir em frente.
Muito além do “projeto verão”
A campanha também começa a ganhar uma dimensão que Serena não esperava, já que ao compartilhar sua experiência de forma mais real, sem representar aquela pessoa que entra na academia já completamente motivada e apaixonada por exercícios, ela começa a alcançar outras pessoas que se reconhecem em sua jornada.
E gosto muito dessa ideia porque ela conversa diretamente com aquilo que o livro vem construindo desde o início: começar já pode ser uma conquista.
Nem todo mundo está tentando transformar completamente o próprio corpo. Nem todo mundo vai chegar motivado. Nem todo mundo vai conseguir manter a mesma constância desde o primeiro dia. E nem sempre o objetivo precisa ser estético.
O projeto que inicialmente deveria ajudar uma academia a sair de uma situação difícil acaba mostrando o valor de representar uma experiência muito mais próxima de quem está tentando apenas dar o primeiro passo.
Vale a pena ler?
Projeto Verão, de Manu Macedo, foi uma leitura de que gostei muito justamente porque encontrei bem mais do que esperava em uma história ambientada dentro de uma academia.
O romance é importante e a relação entre Serena e Gustavo é muito gostosa de acompanhar, mas foram os outros temas que fizeram o livro realmente ficar comigo. A forma sensível como a história aborda luto, ansiedade, crises de pânico e a dificuldade de reconstruir uma vida depois de passar tanto tempo sobrevivendo a uma situação difícil trouxe muito mais profundidade para a jornada de Serena.
Também gostei bastante das diferentes relações que os personagens têm com a atividade física. Como alguém começa, por que começa e o que consegue fazer naquele momento podem ser completamente diferentes de uma pessoa para outra, e o livro permite que seus protagonistas aprendam isso juntos.
Mesmo com mais de 500 páginas, foi uma leitura que fluiu muito bem para mim. O tempo que a história leva para desenvolver seus personagens e relacionamentos não me pareceu excessivo, principalmente porque evita a sensação de que problemas tão complexos poderiam desaparecer de uma hora para outra.
É um romance para quem gosta de provocações que aos poucos dão espaço para amizade, cuidado e sentimentos, mas também para quem procura histórias sobre recomeços que não fingem que seguir em frente significa deixar tudo resolvido para trás.
No fim, talvez o projeto mais importante de Serena nunca tenha sido chegar pronta para o verão, mas aprender, aos poucos, a voltar a viver.