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28 Regras para Ter uma Vida Secreta: romance, cosplay e a coragem de ser quem você é

Uma identidade secreta muito bem guardada

Alex trabalha como coordenadora de marketing em um banco e, para praticamente todo mundo ao seu redor, essa é a única versão dela que existe.

O que ninguém sabe é que, fora do expediente, ela também é Zoe Maki, uma das maiores cosplayers do Brasil. Nas redes sociais, Zoe é conhecida por conseguir se transformar em praticamente qualquer personagem e ocupa com confiança um espaço dentro de um universo que Alex, na vida real, prefere esconder.

Essa divisão não acontece por acaso.

Depois de crescer ouvindo julgamentos sobre seus gostos, especialmente por gostar de anime e da cultura nerd, Alex aprendeu que se esconder parecia mais fácil do que correr o risco de ser ridicularizada novamente. No trabalho, quase ninguém sabe muito sobre sua vida pessoal, e ela faz questão de manter distância suficiente para não deixar pistas.

Até que essas duas partes de sua vida começam a se cruzar.

Quando o banco em que trabalha se envolve profissionalmente com Zoe Maki, Alex precisa encontrar uma maneira de participar de reuniões, decisões e projetos praticamente ao lado da própria identidade secreta sem que ninguém descubra quem está por trás dela.

E, obviamente, tudo fica ainda mais complicado com Bruno por perto.

Entre provocações e um verdadeiro golden retriever

Bruno é colega de trabalho de Alex e praticamente o oposto dela quando o assunto é esconder aquilo de que gosta.

Ele é simpático, comunicativo, assumidamente nerd e não parece ter o menor problema em demonstrar entusiasmo pelas próprias paixões. Também adora provocar Alex, e é justamente dessas implicâncias que nasce boa parte da dinâmica divertida entre os dois.

Enquanto Alex tenta manter sua vida pessoal o mais distante possível do trabalho, a convivência com Bruno começa a revelar que eles têm muito mais em comum do que ela imaginava. Aos poucos, ela percebe que muitos dos interesses que guarda com tanto cuidado também fazem parte do universo dele.

E gosto desse contraste porque Bruno acaba representando, mesmo sem saber, uma possibilidade que Alex ainda está aprendendo a enxergar: gostar das próprias coisas abertamente, sem precisar transformar cada paixão em um segredo.

Quando esconder uma parte de si começa a pesar

Foi esse aspecto que mais me conquistou em 28 Regras para Ter uma Vida Secreta. A identidade de Zoe permite que Alex viva aquilo que ama com liberdade, mas também evidencia o quanto ela separou duas versões de si mesma.

De um lado, existe uma mulher capaz de criar, se expressar e compartilhar suas paixões com milhares de pessoas. Do outro, alguém que mantém sua vida pessoal cuidadosamente protegida e ainda carrega as marcas de ter aprendido que determinados gostos poderiam transformá-la em alvo de julgamento.

Ao longo da história, essa barreira começa a ficar cada vez mais difícil de manter. E existe uma frase no livro que, para mim, resume muito bem o que está por trás da jornada de Alex:

“Para todas que já ouviram que gostar de algo é sinal de infância tardia: nunca tenha vergonha de quem você é ou das suas paixões. As pessoas certas vão te amar por inteiro e é isso que importa.”

Não se trata apenas de revelar quem está por trás de Zoe Maki, mas de perceber que amadurecer não deveria significar abandonar aquilo que nos faz felizes para corresponder ao que outras pessoas consideram adequado para a nossa idade.

Preconceito em diferentes formas

Apesar de ser uma comédia romântica leve, o livro também usa seus personagens e o ambiente de trabalho para falar sobre diferentes tipos de julgamento.

O preconceito que Alex viveu por gostar de anime, cosplay e cultura nerd pode parecer pequeno para quem olha de fora, mas foi suficiente para influenciar profundamente a forma como ela aprendeu a se relacionar com outras pessoas.

Ao redor dela, a história também apresenta personagens que enfrentam preconceitos por razões diferentes, sem transformar essas experiências no centro da narrativa. Isso ajuda a ampliar uma ideia que atravessa o livro inteiro: muitas vezes, as pessoas acabam reduzidas a uma característica e julgadas antes mesmo de terem espaço para simplesmente existir.

Ao mesmo tempo, o ambiente corporativo rende boa parte do humor da história. Reuniões, termos em inglês usados no meio de frases em português e aquele estereótipo muito específico do mundo corporativo aparecem de forma divertida e ajudam a deixar a leitura mais leve.

Um slow burn que deixa a relação crescer

O romance entre Alex e Bruno também funcionou muito bem para mim justamente porque não acontece rápido demais.

A relação vai sendo construída aos poucos entre provocações, convivência e uma proximidade que cresce antes de qualquer coisa se resolver romanticamente.

E, como boa parte do conflito do livro gira em torno de segredos e identidades escondidas, existe um momento em que a falta de transparência inevitavelmente cobra seu preço.

Não foi exatamente minha parte favorita da história. Em alguns momentos, senti que a reação de Alex poderia ter sido um pouco menos intensa, principalmente considerando tudo que o leitor já sabe sobre as intenções de Bruno.

Ao mesmo tempo, entendo de onde vem essa mágoa.

Para alguém que passou tanto tempo controlando quem podia conhecer cada parte de sua vida, descobrir que outra pessoa sabia mais do que ela imaginava mexe diretamente com a sensação de segurança que Alex tentou construir durante anos.

Por isso, mesmo quando pensei “meu Deus, conversem logo”, o conflito ainda fazia sentido dentro da personagem.

Vale a pena ler?

28 Regras para Ter uma Vida Secreta, de Isabela Borrelli, foi uma daquelas leituras leves e gostosas que acabam carregando uma mensagem maior do que a premissa inicialmente faz parecer.

É divertido acompanhar a confusão de Alex tentando equilibrar o trabalho no banco com a vida de uma cosplayer famosa, assim como é muito fácil gostar da dinâmica dela com Bruno. O humor do ambiente corporativo, as referências ao universo nerd e a forma como o romance vai se desenvolvendo tornam a leitura muito fluida.

Mas o que fez o livro realmente funcionar para mim foi a jornada de Alex para entender que não deveria precisar dividir a própria personalidade em partes aceitáveis e partes escondidas.

Existe algo muito libertador em encontrar espaços e pessoas com quem podemos falar sobre aquilo que amamos sem medo de parecer estranhos, infantis ou exagerados.

No fim, 28 Regras para Ter uma Vida Secreta pode começar com uma identidade secreta, um ambiente corporativo e um romance cheio de provocações, mas a jornada mais importante é a de Alex aprendendo que talvez não precise existir em versões separadas. Porque gostar de alguma coisa com entusiasmo nunca deveria ser motivo para esconder uma parte de quem somos.

Luiza Reyes
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